Priorato e Douro – semelhanças e diferenças entre estas duas regiões

Há lugares na Terra que ainda nos permitem viajar no tempo.  Pelo menos no planeta dos vinhos. Lugares onde a tecnologia, química e máquinas são totalmente relegadas para um plano irrelevante. Lugares onde os processos de produção de vinho para as massa são quase desconhecidos. Lugares onde cada bago conta, porque são poucos. Esse lugar é o Priorato.

Localizado no sul da Catalunha, a poucos quilómetros do mar Mediterrâneo, nalgumas coisas o Priorato recorda-me aquilo que seria o Douro dos séculos XVII, XVIII e XIX. Pude vê-lo em cada canto, na paixão dos locais pela videira, no respeito pelas tradições, nos solos feitos de xisto ou nas oliveiras nas bordaduras dos inclinados vinhedos.

São muitos os contornos das montanhas do Priorato que se comparam aos do Douro. Mas no Priorato, as vinhas velhas encontram-se ainda plantadas na encosta da montanha, sem qualquer socalco ou patamar de sustentação, o que torna impossível o cultivo com tratores e muito difícil a movimentação de animais de trabalho ou homens. A razão pela qual não se encontram socalcos prende-se com a vontade de manter e preservar as vinhas velhas em vez de as substituir por novas plantadas em patamar. A qualidade das uvas destas vinhas velhas é inquestionavelmente superior às uvas das vinhas novas, o que se traduz numa razão suficiente para mantê-las, apesar dos superiores custos de granjeio. E os vinhos ali produzidos refletem a velhice das videiras, são elegantes, ricos e tremendamente complexos. Para envelhecer, certamente, mas igualmente deliciosos quando bebidos jovens. O Ryan Opaz da Catavino fala nas semelhanças entre as notas de prova de vinhos do Douro e do Priorat, o que não deixa de ser curioso dadas as semelhanças de terroir.

Há uma coisa que falta ao Priorato que enriqueceria a paisagem: um rio. Um rio largo, e então as similaridades com o Douro seriam enormes. Quando tiver oportunidade visite o Priorato, vá ver as vinhas, conheça as pessoas que lá vivem e aprecie a paisagem sem moderação.

Oscar

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Quinta da Alegria – plantar videiras no Douro

 

Estamos agora a lidar com a parte mais difícil dos nossos trabalhos na Quinta da Alegria. Depois de abrir os patamares e retirar as pedras, chegou finalmente o momento de plantar as jovens videiras pré-enxertadas. Na área onde estamos a trabalhar agora, no cimo da propriedade, estamos a plantar videiras de Tinta Amarela. Talvez a primeira pergunta que lhe surgiu seja, porquê plantar Tinta Amarela neste local? A resposta assenta sobretudo no facto desta casta ser bastante sensível à humidade, desenvolvendo facilmente míldio e oídio. A Tinta Amarela também não gosta de temperaturas demasiado quentes. Depois da floração pode rapidamente desenvolver os fungos do míldio e do oídio caso haja alguma humidade e temperaturas de 22º-25ºC. A melhor localização da Tinta Amarela é em zonas de baixa humidade, ventosas e onde as temperaturas não atinjam valores elevados durante o Verão.

Para plantar as vinhas o primeiro passo que damos é traçar uma linha ao longo do socalco, a 50 cm do limite exterior. Depois utilizamos um ferro para abrir um buraco com cerca de 80cm de profundidade. Colocamos então a jovem videira no buraco e de imediato utilizamos água com pressão para irrigar e fechar o buraco. Deixamos uma distância de 80cm entre videiras.

A minha irmã Cláudia fez um vídeo com todos estes passos. Quem sabe se um dia não servirá de ajuda a tornar-se um viticultor no Douro. Caso haja dúvidas ou questões, escreva-as no fundo deste artigo.

Oscar

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Quinta da Alegria – retirar as pedras para plantar as videiras

Os trabalhos de surriba na Quinta da Alegria continua a um ritmo moderado mas firme, com vista à plantação de videiras. Nas últimas semanas temos estado a traçar socalcos e surribar o terreno para eliminar alguma compactação de terra que possa existir. Também importante quando se movimenta as terras é remover as pedras de maior tamanho de modo a facilitar a penetração das raízes da vinha e a movimentação dos tratores para o granjeio. Depois de retiradas as pedras dos socalcos torna-se necessário encontrar um local onde se possam colocar sem interferir com a circulação de viaturas. O local que escolhemos é no local dos caminhos, ou seja, abrimos uma grande vala com 5 a 6 metros de profundidade onde se colocam todas as pedras de maior tamanho. É posteriormente colocada terra por cima e alisado o terreno para servir de caminho. Desta maneira aumentamos também a estabilidade do próprio caminho, reduzindo o risco de deslizamento de terras que por vezes ocorrem em Invernos chuvosos.

Na foto acima pode ver a vala que abrimos na figura traçada a vermelho, enquadrada no que será o futuro caminho. Do lado esquerdo da linha azul pode ver os socalcos já terminados e do lado direito da linha amarela o terreno ainda por trabalhar.

Com as temperaturas a subir e o risco de geadas a desaparecer, começamos agora a plantar as videiras. Em breve vamos partilhar um vídeo com a plantação de videiras na Quinta da Alegria.

Algum comentário que queiram fazer?

Oscar

Inverno de chuva sobe a fasquia para a vindima de 2014

A primavera está finalmente a chegar depois de um inverno muito chuvoso. Este foi provavelmente o inverno mais chuvoso dos últimos 80 anos, o que nos cria grandes expectativas para a vindima. Como sabem, o Douro é uma das regiões vitícolas mais secas do mundo e um inverno chuvoso é um ponto chave para fazer vinhos e Porto de grande qualidade. O tempo começa agora a aquecer e a limpar, mas deveremos ter mais chuva nos próximos meses.

O reverso da medalha é que tanta chuva manteve-nos afastados das vinhas fazendo com que não pudéssemos trabalhar tanto quanto pretendíamos. Quer isto dizer que os trabalhos estão atrasados, com a poda só agora a terminar. Depois disso, ainda temos de triturar as vides que foram cortadas na poda, que é o trabalho que o Paulo está a fazer no trator verde.

Com o início da rebentação começará um novo ciclo para a uva. Sem pressas, é a natureza que marca o ritmo, mas confesso que a perspectiva de uma grande vindima começa a animar-nos.

Deixem as dúvidas e comentários.

Oscar

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Quinta da Alegria – como abrir patamares no Douro

Na Quinta da Alegria estamos agora na segunda fase da plantação de videiras. Depois de desfazer os socalcos antigos, estamos agora a abrir patamares de 2.30 metros com uma bulldozer. Devido à elevada inclinação do terreno, só vamos plantar um bardo (ou fila) de videiras por patamar. Se plantássemos socalcos de dois bardos, como se vê na maioria das vezes, a maior altura do patamar aumentaria o risco de deslizamento de terras. De modo a melhor reter a chuva, estamos a preparar o terreno com 3% de inclinação para dentro do socalco e 3% ao longo do socalco. Esta inclinação permite mais retenção da água ao mesmo tempo que evita deslizamento de terras. Quando o solo estiver saturado de água, a inclinação de 3% ao longo do socalco permite a condução das águas para o caminho e posteriormente para o rio. Para calcular com precisão a inclinação, utilizamos um feixe de infravermelhos (pode vê-lo atado à estaca à frente da bulldozer). O comprimento do socalco dependerá do traçado do caminho. Depois de aberto o socalco, uma giratória fará a surriba, ou seja, mobiliza a terra até cerca de 1.8 metros de profundidade retirando as pedras maiores.

Por agora temos cerca de 2 hectares de terreno preparados para a plantação. As primeiras videiras vão ser plantadas no início de Março. Essa é a próxima fase que vamos partilhar aqui.

Oscar

Quinta da Alegria – como preparar a solo para plantar videiras

A Quinta da Alegria é uma das propriedades (a outra é a Quinta das Mós) que pertence à família da minha mãe. Foi inicialmente plantada pelo meu bisavô no início do século passado. Naquela altura as uvas eram utilizadas para fazer Vinho do Porto na propriedade e seria depois daí enviado para Vila Nova de Gaia nos barcos rabelos. Mais tarde, nos anos 80, o meu avô Joaquim Morais Fernandes, em conjunto com a minha avó Judite, replantaram a quinta com videiras novas. Quando os meus avós morreram, na década passada, a propriedade foi herdada pelos meus tios e mãe, que continuam a ser os proprietários. Agora, em 2014, a família decidiu replantar cerca de 13 hectares de vinha no meio da propriedade – a parte de cima tem vinha velha e a parte de baixo, por baixo da linha de comboio, está plantada com laranjeiras e tangerineiras. Temos estado muito concentrados e empolgados neste novo desafio, até porque a Quinta da Alegria está localizada num lugar muito bonito, com exposição sudoeste, uns quilómetros a jusante da barragem da Valeira.

Estão agora a começar os trabalhos e achei que iam gostar de saber, passo a passo, como plantar vinhas no Douro. A primeira coisa a fazer é retirar os arames e os esteios que os sustentam. Depois disso, uma bulldozer veio desfazer os sucalcos antigos e desmatar o terreno. O video acima explica bem este primeiro passo.

O próximo passo será abrir novos sucalcos e nivelá-los. Será publicado em breve.

Oscar

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Vinho e Rolha – porque precisam tanto um do outro

A rolha tem um papel muito importante no mundo dos vinhos. Tem sido, historicamente, o mais utilizado dos vedantes, sendo nos dias de hoje utilizado em cerca de 70% das garrafas de vinho em todo o mundo. Contudo, nas últimas décadas, tanto as cápsulas de rosca (feitas de alumínio com cerca de 19% de utilização) como a rolha de plástico (com cerca de 11% de utilização) tornaram-se populares. Porquê? Eu apontaria duas razões:

Apesar destes dois fatores, a cortiça continua a ser o mais usado dos vedantes. E porque serão os produtores de vinho tão insistentes na utilização de cortiça? Visitei recentemente uma das fábricas da Corticeira Amorim e procurei perceber qual a motivação por trás da utilização da cortiça. Li também alguns artigos sobre vedantes para garrafas de vinho e encontrei algumas publicações surpreendentes (veja a bibliografia ao fundo deste artigo). Colocando a questão ambiental de parte (a cortiça vem diretamente da casca dos sobreiros) há dois fatores que ajudam a cortiça a garantir a melhor qualidade como vedante de garrafa de vinho:

Em relação ao Vinho do Porto, em 2008 havia um produtor, Castelinho, que não usava só rolha de cortiça. Usavam rolha de plástico em algumas referências. Nesta altura não conheço nenhum a usar plástico. A legislação não autoriza a utilização de cápsulas de rosca (a única exceção são as garrafas de tamanho muito pequeno que podem ser seladas com cápsula de rosca). Ainda que prefira cortiça para o Vinho do Porto, discordo da posição do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto quanto à impossibilidade de utilizar outros vedantes. Os produtores deveriam utilizar o que eles acham que melhor serve os seus vinhos. Pela análise e investigação de diferentes vedantes, deveríamos poder compreender como difertentes vedantes afetam o envelhecimento do Vinho do Porto. E posteriormente, poderíamos chegar à conclusão sobre qual é o vedante mais adequando para as garrafas de Vinho do Porto. Mas por experimentação, não por decreto.

Oscar

Bibliografia – Se quiser ler mais sobre vedantes de vinho sugiro que consulte as seguintes publicações:

Resumo de imprensa e a despedida a 2013

Com o ano quase a terminar, achámos que seria interessante partilhar convosco aquilo que tem sido dito pelos especialistas sobre os nossos vinhos do Porto e Douro. Tentámos combinar neste resumo de imprensa uma nota sobre cada Vinho do Porto e cada Douro, reunindo um diverso número de publicações.

2013 for um grande ano para nós, e só esperamos que 2014 seja igualmente bom.

Feliz 2014!

Oscar

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Abrir uma garrafa de Porto com tenaz

Nota breve: este vídeo foi feito pela Rádio Renanscença numa visita à nossa cave em Vila Nova de Gaia.

Se há coisa que entretêm os enófilos são os rituais. Temos atenção aos copos que se usam, à forma como se passa a garrafa, ao tempo de decantação ou à temperatura de serviço do vinho. Tomamos estes passos para garantir que desfrutamos da garrafa em todo o seu esplendor. Outro ritual que também nos preocupa é como abrir a garrafa e que saca rolhas utilizar. Na verdade, algumas garrafas há, já de muito avançada idade, das quais não se conseguirá tirar a rolha numa única peça e para as quais é preferível remover a parte superior do gargalo.

Como é que se utiliza a tenaz de Vinho do Porto? O vídeo acima ajuda a perceber, mas em poucos passos, faz-se o seguinte: aquece-se a tenaz (eu prefiro brasa ao bico do fogão); depois coloca-se a ponta da tenaz à volta do gargalo, ligeiramente acima do nível inferior da rolha e deixa-se em contacto durante uns 30 segundos, colocando-se de seguida uma toalha húmida e muito fria (mergulho a toalha em água com gelo) nesse mesmo sitio. Se a tenaz estiver bem quente a mudança de temperatura fará com que o vidro estale. E aí está. Depois é só decantar e desfrutar com os amigos.

Oscar

O Douro debaixo do nevoeiro

Parambos, Carrazeda de Ansiães

Está a chegar o inverno ao mesmo ritmo que os dias ficam mais curtos. As temperaturas no Douro têm-se mantido pouco acima de 0º, o que é bem normal para a época do ano. Normalmente, nesta altura do ano, chove com frequência. Uma ou duas vezes por semana diria eu. Contudo, depois dos longos dias de chuva em outubro que ajudaram a estragar as uvas e parte da colheita no Douro, pouca chuva veio depois. Nestes últimos dias a humidade chega apenas pelo denso nevoeiro que tem coberto o vale. Apesar de ser mais difícil aguentar o inverno uma vez que a humidade é alta, este nevoeiro ajuda a criar cenários muito bonitos. E esta foto é um bom exemplo das vistas que se encontram no Douro. A foto foi tirada a caminho da aldeia do Tua, na margem direita do rio.

Da próxima vez que planear uma visita ao Douro considere vir no inverno, mas se o fizer, traga um bom casaco.

Oscar

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