Uma garrafa antiga de Vinho do Porto feito pela família há meio século

Av� Ra�lFaz hoje 50 anos que faleceu o meu bisavô Raúl, em Valongo dos Azeites, uma aldeia a 15km de S. João da Pesqueira. A paixão que tinha pela vitivinicultura foi determinante na educação, formação e no despoletar da paixão dentro do meu pai. Nunca tive a oportunidade de conhecer o Avô Raul, como sempre lhe chamamos, ele que era o pai da minha avó Josefina. Muitas foram as histórias que ouvi da boca dos meus avós e do meu pai sobre a vida naquele tempo, e talvez por isso, quisesse ter vivido durante uns tempos na sua casa durante os anos 40 ou 50 do seculo passado.

Naquela altura não era possível a um produtor de Vinho do Porto, que tivesse a sua sede no Douro, exportar a sua produção. Todas as exportações de Vinho do Porto teriam de ser feitas a partir do entreposto de Vila Nova de Gaia, cujos armazéns eram, na sua grande maioria, propriedade de famílias estrangeiras. Só em 1986, quando Portugal aderiu à então CEE, a legislação foi alterada, permitindo aos produtores do Douro exportar os seus vinhos para qualquer parte.

Quando o meu bisavô estava ao comando dos negócios da família, o mercado internacional era uma espécie de miragem, desejado mas inacessível (devido às restrições legislativas explicadas acima). Deste modo, a família teve de centrar-se no mercado doméstico para escoar a produção de vinho engarrafado. Mas como não conseguíamos vender tudo engarrafado, recorríamos à venda a granel, em pipas, para os exportadores que estavam em Gaia.

Naquela altura não havia tanta especialização como há hoje em dia, daí que a família se dedicasse também às culturas do azeite, noz, castanha e amêndoas, para além dos legumes e cereais cultivados para consumo doméstico. Também nos dedicávamos à produção de vinho de mesa, mas em menor medida e para um público completamente local, uma vez que naquela altura não eram de grande qualidade e eram totalmente desinteressantes para os forasteiros.

Muita coisa mudou quando o Avô Raúl morreu a 30 de Dezembro de 1960. A propriedade foi dividida pelos 6 filhos, e como muitos decidiram vender as suas partes a terceiros fora da família, a produção de uvas e de Vinho do Porto ficou seriamente comprometida. Entre todos os irmãos, só a minha avó Josefina, casada com o avô João, decidiram manter-se na paixão da famºilia, tendo sido os únicos a ficar no Douro e a dedicar as suas vidas aos vinhos.

Old bottle of Quinta de Santo Ant�nio Port Wine Quando olho para o que ainda temos da época do bisavô Raul, não há muitas coisas que possa enumerar. Os meus pais são os donos da sua última casa, a qual estamos agora a reconstruir para ser utilizada pela família e amigos. Ainda temos algumas propriedades que ele possuía, mas em termos de Vinho do Porto, quantitativamente o legado é fraco. Que pena… Contudo, houve uma pequena mudança há uns meses quando um senhor veio até à nossa adega e nos deixou uma garrafa que tinha herdado, de Vinho do Porto Quinta de Santo António, feito pelo Avô Raul. Sentimos que estávamos a receber o maior tesouro do mundo. é uma extraordinária peça histórica que nos liga aos nossos antepassados.

Recentemente, uma vez que a rolha original estava em más condições, decidimos rolhá-la com uma rolha nova, mas não sem antes provarmos umas gotas do vinho. Era uma delícia, tinha um sabor familiar.

Oscar

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  • Michael Grisley

    Wow! Thank you so much for not only a quick history lesson on Port, but also an insight into your family- truly amazing Oscar! I’m so glad the gentleman who gave you the bottle was so kind and that your family now has a beautiful piece of your wine making history back under your own roof. Obviously, it’s in your blood because you continue to make wonderful ports and wines- Happy New Year!!

  • Andy Velebil

    Thanks for sharing this wonderful story and kudos for that fine gentleman who brought this bottle back home where it belongs.

  • Steve Santos

    Oscar,
    Great story. Hopefully I will get to stay at your Grandfather’s place next time I go there.
    Happy New Year

  • João Cruz

    “Os meus pais s�o os donos da sua �ltima casa, a qual estamos agora a reconstruir para ser utilizada pela fam�lia e amigos.”

    Linda história. Realmente o vinho do Porto desafia o tempo. Não marca uma só data, marca um percurso desde essa data até agora. Liga o passado com o presente.

    Boa Sorte e tente manter dessa forma alguma recordação dessa história nessa última casa.