Apresentação na Vindouro com dois pontos controversos
Vindouro oscar quevedoHá tradições interessantes, criadas já no início do século XXI, que devemos procurar preservar. Uma dessas tradições é a Vindouro, um festival de vinho, alimentação e cultura que tem lugar na minha vila, em S. João da Pesqueira, no início de Setembro. Este ano houve também espaço para uma conferência dedicada ao presente e futuro dos Vinhos do Douro e Porto, na qual eu tive oportunidade de expor o meu ponto de vista. Os dois principais pontos da minha apresentação que motivaram comentários da audiência foram:
- predominante concentração em castas com mais nome
- redução do número de produtores de vinho do Douro
Deixe-me só clarificar que eu não sou um defensor de nenhum destes pontos; acho simplesmente que vão ocorrer se não fizermos nada para o contrariar.
- Historicamente, os pequenos viticultores do Douro, que representam a grande maioria da produção de uvas, seguiam conhecimentos empíricos para escolher as castas que deveriam utilizar para fazer o Vinho do Porto. Consequentemente, em 1981, foi levado a cabo um grande estudo sobre castas no Douro, do qual resultou a recomendação de 5 castas para Vinho do Porto, esculpindo em pedra o destino da viticultura no Douro. Rapidamente os viticultores começaram a plantar por talhões as castas recomendadas, limitando ou extinguindo a plantação de “castas estranhas”. E eu até poderia ter defendido esta prática se os nossos antepassados plantassem estas 5 castas, mas não era o caso. Touriga Franca, Touriga Nacional, Tinta Roriz, Tinto Cão e Tinta Barroca são algumas das dezenas de castas nativas. As vinhas têm uma diversidade de castas que em conjunto permitem que elaboremos extraordinários Vinhos do Porto, não meia dúzia escolhidas a dedo. E será que estas castas são também boas para Vinho do Douro? Não, ou melhor, depende das proporções. Todos queremos preservar a cultura e diversidade do vale do Douro, e para tal precisamos de manter as vinhas velhas também com as castas menos conhecidas. Em poucas palavras, precisamos de mais variedade, mais mistura.
- Há cerca de 360 produtores de Vinho do Douro, sem que haja um ou alguns com uma grande fatia do mercado. Durante os últimos anos, com o preço das uvas a cair abaixo de 1 euros, e em alguns casos abaixo de 50 cêntimos, muitos viticultores decidiram fazer vinho em vez de venderem só as uvas. Para a grande maioria, este é uma ocupação a tempo parcial, já que mantêm os empregos que têm noutras actividades. Por outro lado, poucos são os que têm conhecimento de marketing para vender os vinhos e não estão disponíveis para gastar 1 cêntimo em viagens, provas ou eventos sociais. A internet continua a ser uma ferramenta desconhecida. Alguns destes produtores têm stocks antigos de vinho do Douro, quando novas vindimas vão batendo à porta cada mês de Setembro. Isto não é sustentável, e alguns vão ter que, mais tarde ou mais cedo, deixar de vender o vinho engarrafado. Na minha opinião, o sector dos vinhos do Douro vai seguir os passos dados pelo Vinho do Porto há uns anos, com o número de produtores a apertar. Neste momento há cerca de 98 produtores de Vinho do Porto com os 5 maiores a venderem 75% do total. Na conferência da Vindouro sobre Vinhos do Porto e Douro estava sozinho a defender este ponto. Enquanto que o Cristiano van Zeller, da Quinta Vale D. Maria, concordava comigo no primeiro ponto, neste em particular, acha que o sector dos DOC Douro não vai perder produtores.
Vamos continuar aqui a discussão que tivemos na conferência em S. João da Pesqueira. Partilhe os seus comentários e ideias. É óptimo termos os pontos de vista dos que não estão no sector.
Oscar
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